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A fotografia das pesquisas eleitorais

Paulo Roberto Figueira Leal, cientista político e professor da UFJF

As pesquisas de intenção de voto não têm, nem podem pretender ter, capacidade preditiva quando feitas meses antes das eleições. Elas apontam para uma fotografia do momento em que são realizadas – e é só isso que podem mostrar, mesmo que bem feitas. Ao se constituírem séries históricas, contudo, aumenta a chance de elas indicarem tendências.

A pesquisa Ibope sobre a disputa presidencial que foi divulgada no dia 28 de junho, encomendada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), não deve, portanto, ser vista isoladamente, mas cotejada a outras informações prévias. Certas tendências desta pesquisa em específico são bastante convergentes com outras enquetes realizadas anteriormente por outros institutos.

Segundo o Ibope, no cenário com o nome do ex-presidente Lula nas urnas, ele alcança 33% de intenções de voto, contra 15% de Jair Bolsonaro, 7% de Marina Silva, 4% de Ciro Gomes, 4% de Geraldo Alckmin, 2% de Álvaro Dias e 1% ou menos para os demais candidatos. No cenário sem Lula, Bolsonaro chega a 17% das intenções de voto, seguido por Marina (13%), Ciro (8%), Alckmin (6%), Álvaro (3%.) e Fernando Haddad (2%), como possível nome substituto de Lula.

Esses dados reafirmam tendências já apontadas por outros institutos. A principal talvez seja a reiterada constatação da resiliência eleitoral de Lula: mesmo preso, continua sendo a peça central na dinâmica de 2018 (seja como candidato seja apoiando outro nome e buscando transferir votos). Mantido esse quadro, o xadrez eleitoral de 2018 viverá uma permanência histórica – assim como em 89, 94, 98, 2002 e 2006 (como candidato), ou em 2010 e 2014 (como cabo eleitoral), Lula tende a ocupar papel central da determinação das peças no tabuleiro.

Outros dados destacáveis na pesquisa dão conta de que Bolsonaro se encontra num patamar alto (mas sem dar continuidade às curvas de crescimento que apresentou anteriormente); Marina tem razoável recall das duas campanhas passadas e cresce num cenário sem Lula (mas pode ter dificuldades com pouco tempo de TV e falta de estrutura partidária); e Ciro tem potencial de crescimento (sobretudo também num cenário sem Lula).

Mas provavelmente o elemento mais significativo da enquete diga respeito à anemia de intenções de voto no PSDB: com Alckmin, o partido amarga o pior resultado para um candidato tucano desde 1989. Parece claro que os partidos que foram os pilares da deposição de Dilma – PSDB e MDB – pagam o preço da altíssima impopularidade do governo Temer e das políticas que foram implementadas por ele, com suporte desses partidos.

Os dados sugerem que o PSDB pode ter perdido para Bolsonaro a fração mais à direita de seu eleitorado e não tem sido capaz de avançar em outros segmentos. É curioso observar que, num cenário hipotético em que Dilma Rousseff tivesse continuado na presidência, hoje o PSDB tenderia a apresentar-se em condições eleitorais mais competitivas. O autoproclamado “centro democrático reformista” – eufemismo para partidos cujas ideias situam-se na centro-direita e na direita – continua sem candidato competitivo até o momento.

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