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Apoio ao produtor, não ao especulador

O que se aprende com a crise dos combustíveis no Brasil é que, a despeito dos problemas de gestão que causaram problemas às empresas públicas brasileiras, o atrelamento das mesmas à lógica da gestão privada e do financismo é uma tragédia para todo país. Isto porque não se pode negligenciar o papel, estratégico, do provimento de insumos diretos de todo o aparato logístico e energético de qualquer lugar do mundo, sob pena de travar as engrenagens que movem a economia. Se um Estado se propõe incentivador do capital privado para as soluções da economia, conceito que hoje, à exceção de poucos núcleos radicais, todos partilhamos, ainda cabe ao Governo prover condições de estabilidade e competitividade ao investidor do capital produtivo.

E, caso o leitor se pergunte a que se refere “capital produtivo”, tenha a certeza de que esta expressão está no cerne da crise de abastecimento que atravessamos nas últimas semanas, e que seu oposto, o “capital especulativo” ou “financeiro”, hoje assola mundialmente economias de diversos países desenvolvidos ou emergentes. Atualmente, este último setor ganhou uma terceira alcunha, menos apudorada de defini-lo no que ele é: “capital improdutivo”.

Isso mesmo! Trata-se do fazer dinheiro em cima do que não se produz, a partir dos anseios e ideações sobre valores abstratos que flutuam nas bolsas de todo o mundo, especulando com papéis de empresas e títulos da dívida pública de países mundo afora, sem que o enriquecimento desses “investidores” advenha de uma banquinha de comércio, de um computador entre divisórias de escritórios, de tratores e colheitadeiras, ou mesmo do bom e velho cabo de enxada. 

O tão propalado “investidor” que “salvaria o país” tem cifrões no lugar da íris dos olhos, sedentos muito pouco de trabalho, mas da valorização de seus papéis conforme o lobby que consegue alinhavar junto às diretorias de empresas e Governos de países mundo afora. São esses senhores, de fraque e ostentando taças de champangne diante de uma vista panorâmica em Manhattan ou numa ilha paradisíaca no arquipélago de Seychelles, que jogam o jogo pesado das bolsas de valores. Não somos nós, com nossa meia dúzia de ações do Banco do Brasil, compradas para renderem e tornarem-se um apartamento para a família. 

Não sem motivo, a gestão Parente, por dois anos à frente da Petrobras, fez valorizarem-se suas ações e aumentou as margens de lucro da empresa, sem, no entanto, oferecer à população quaisquer melhorias em serviços, qualidade de vida, estabilidade e previsibilidade econômica. O modelo atingiu o coração daquele que é o coração do Brasil: seu setor produtivo. A cadeia que começa no agroexportador, passa pelo industrial do setor de máquinas e siderurgia, pelo transportador, até chegar ao caminhoneiro, o grande protagonista. Porém, não somos menos importantes todos nós, que dependemos deste último modelo de capitalismo, e não daquele primeiro.

Um país de livre iniciativa se constitui na estabilidade econômica que, quem diria, um dia fora a bandeira do PSDB, com a implantação do plano Real. Hoje, quando um de seus principais quadros impõe ao povo aumentos sucessivos no preço dos combustíveis, nada mais está fazendo que causar instabilidade na economia e inflação, pois encarece a energia, insumo mais básico para a produção. Toda a cadeia é afetada.

Não é em serviço ao capital especulativo que vamos resolver os problemas do país. É, claro, diminuindo problemas internos de gestão pública, a corrupção o principal deles. Contudo, não que isso deva custar todo nosso sistema político e grande parte das principais empresas do país. Neste momento, nós, da classe média, devemos estar atentos e entendermos que é fundamental defendermos qualidade de vida, um Estado de bem-estar que garanta igualdade de oportunidades e consequente qualificação profissional de homens e mulheres de todas as origens e etnias, um setor agrário e industrial forte e nacional. Isso resulta em melhoria para nossas próprias vidas.

Por isso, pauta central no processo político futuro, que começa nas conversas de bar, nas ruas, no trabalho, que pode se converter em manifestações públicas e tem seu ponto alto nas eleições de outubro, deve ser a economia. O retorno a um projeto de desenvolvimento nacional com igualdade para todos. 

É bom para os pobres. É bom para os ricos interessados mais em nós que em papéis. E, portanto, é bom para nós.

Hélio Rocha

Jornalista formado pela UFJF

Repórter de meio ambiente e direitos sociais

Mestrando em Comunicação

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