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As dúvidas sobre 2018

O atentado contra o presidenciável Jair Bolsonaro (PSL), ocorrido em Juiz de Fora no dia 6 de setembro, gera a óbvia necessidade de que toda a sociedade repudie o uso da violência como recurso político. Duas demandas se acumulam: por um lado, a de que a apuração do crime seja rápida e bem feita, de modo que se apontem e se punam os eventuais culpados; por outro lado, a de que o triste episódio desestimule lideranças políticas – dentre as quais o próprio Bolsonaro – a insistirem no discurso de ódio contra os adversários como forma preferencial de fazer campanha.

Do ponto de vista meramente eleitoral, o crime produz dúvidas sobre a extensão de seus efeitos e acaba por reforçar a constatação de que, a algumas poucas semanas da votação de primeiro turno, esta é a disputa com resultados mais imprevisíveis desde 1989. Apesar de, num primeiro momento, ser possível avaliar que o ocorrido beneficia eleitoralmente a vítima, não se pode ainda perceber a total extensão dos desdobramentos ao longo das semanas que virão.

É possível argumentar que as eleições presidenciais brasileiras têm historicamente se estruturado em torno do eixo petismo x antipetismo. Desde o segundo turno da primeira eleição pós-redemocratização, o PT nunca teve menos do que um terço do eleitorado – mas, igualmente, há pelo menos outro terço que foi se consolidando como extremamente antipetista. Se o antipetismo migrou de Collor (em 1989) para o PSDB (entre 1994 e 2014), em 2018 uma parcela considerável dos eleitores com aversão ao PT está com Bolsonaro.

Nesse sentido, como antagonista do PT ao longo das últimas seis eleições, o desafio do PSDB é trazer de volta parte de seu eleitorado tradicional que migrou para Bolsonaro. Como Geraldo Alckmin tem o maior tempo de TV e rádio, ali têm se concentrado as baterias contra Jair Bolsonaro. Ao PSDB, não basta crescer: é preciso crescer fazendo refluir a intenção de voto em Bolsonaro – algo que ficou mais difícil depois do atentado contra ele.

No campo petista, outra dúvida: se candidato, Lula seria favoritíssimo à vitória. Não sendo, a pergunta central consiste na real capacidade de transferência de votos para seu substituto, Fernando Haddad. Conseguirá Lula fazer, mesmo preso, suas intenções de voto se direcionarem para o candidato do PT, ou candidatos como Marina e Ciro ficarão com fatias significativas desse espólio? Em 2010, Lula foi muito eficiente na transferência de votos para Dilma, mas o cenário de 2018 é muito distinto (inclusive com a diminuição do tempo de campanha na TV).

Portanto, as respostas que se produzirão em relação a três perguntas determinarão a configuração do cenário eleitoral, na composição para o eventual segundo turno: a) qual é a extensão dos ganhos eleitorais de Bolsonaro ao ser vítima do atentado contra ele?; b) qual é capacidade de Alckmin, com muito tempo de TV e rádio, reconquistar setores do eleitorado que votaram por muitas vezes no PSDB no passado, mas hoje estão com Bolsonaro?; c) qual é a capacidade de transferência de votos de Lula para Haddad? Resta esperar que as próximas pesquisas eleitorais nos ajudem a esclarecer esses pontos.

Paulo Roberto Figueira Leal, cientista político e professor da UFJF

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