HomeOpiniãoAs novas pesquisas e a releitura constante do cenário eleitoral

As novas pesquisas e a releitura constante do cenário eleitoral

Dados recentes da pesquisa Ipsos, que mede popularidade e rejeição de figuras públicas para o jornal Estado de São Paulo, bem como aferições do Datafolha, revelam índices importantes a serem considerados pelos brasileiros nos próximos meses, em que se avizinha o mais importante processo eleitoral da história da Nova República, ameaçada desde o golpe/impeachment (ao sabor do leitor) de 2016 e a imensa crise institucional que o sucedeu.

Hoje, segundo Ipsos, pela primeira vez o ex-presidente Lula, preso desde o dia 7 de abril em Curitiba, ultrapassou o juiz Sérgio Moro em seus índices de aprovação e menor rejeição. Lula é aprovado por 45% dos brasileiros, o que ainda o coloca mais rejeitado que aprovado, visto que 54% o rejeitam e 1% estão indiferentes. Daí, uma conclusão: o petista mobiliza a população como nenhum outro, amem-no ou odeiem-no. Moro, por sua vez, também mantém índices polarizados, mas já perde para Lula nos dois quesitos: 37% de aprovação, 55% de rejeição, com um lastro maior de 8% de indiferença.

Tais números evidenciam que o lulismo e o antilulismo são incapazes, por si só, de colocar o país no prumo, visto que, no momento, não possibilitam a coalizão necessária para confluir interesses no sentido de uma pauta de Governo. O modelo progressista de bem-estar social proposto pelo Partido dos Trabalhadores e capitaneado por Luís Inácio afigura-se urgente para o país, social e economicamente, mas a moralidade representada pelo Judiciário revela a indisposição do eleitorado com o espectro da corrupção que circunda o meio político. Não por acaso, embora rejeitado por mais da metade da população, Lula tem os índices mais confortáveis, ante números acima de 60% e 70% para nomes como Ciro, Marina, Alckmin, Bolsonaro.

A virada do lulismo sobre Moro ou o “lavajatismo” que este representa mostra, na verdade, a fragilização do mito da moralidade que convergia para o Judiciário. Após escândalos como o dos auxílios-moradia, das negociações obscuras para delações premiadas, das viagens e premiações nababescas e, finalmente, da ocupação do triplex no Guarujá e a prova flagrante de que não houve reformas imóvel atribuído a Lula, Sérgio Moro vê esfarelar-se sua credibilidade junto ao cidadão.

A aposta da direita, agora, é sustentar este cenário até setembro deste ano, quando estará a pleno vapor o processo eleitoral. Na esquerda, o investimento é em manter a candidatura Lula até que a guinada na opinião pública torne urgentes as revisões tanto da prisão em segunda instância quanto da inviabilização do ex-presidente pela Lei da Ficha Limpa.

Nenhuma das duas estratégias, no entanto, aponta soluções para a repactuação democrática e retomada de um cenário de respeito às instituições. Parece ainda incipiente o caminho para que direita e esquerda apertem as mãos e que o debate democrático retorne ao campo político, retirando dessa conta o Judiciário e devolvendo-o a seu papel constitucional.

Em tempo…

Lula também é considerado, pelo povo brasileiro, o candidato mais preparado para devolver ao país o crescimento e a estabilidade econômica. São 32% dos cidadãos entrevistados, o que, desconsiderando os que não souberam ou não responderam, atinge 40%. Daí se extrai duas conclusões: inviabiliza-se completamente a saída neoliberal e, portanto, quaisquer candidatos que sinalizem com propostas similares ao que é implementado atualmente no Brasil; torna-se latente a realidade de que ao eleitor, em situações urgentes, interessa mais a credibilidade de quem já lhe fez bem ao bolso, se comparada aos argumentos teóricos e ideológicos.

Se a repactuação democrática é o principal entrave para a recondução da economia, Lula tem em seu recall (a lembrança, no jargão do marketing político) o principal lastro para a retomada. Criatura política por natureza, o velho Luís Inácio saberá utilizá-lo. A pista já se encontra em seu jingle de campanha que, não se iludam, já estava pensado antes da prisão: “Chama que o homem dá jeito”.

Hélio Rocha

Jornalista formado pela UFJF

Repórter de meio ambiente e direitos sociais

Mestrando em Comunicação

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