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Fazer diferente para ter novos resultados

Quando se tem poucas oportunidades na vida, sendo mulher e morando em um dos bairros com maior vulnerabilidade de Juiz de Fora, falar de crescimento pessoal e profissional parece uma realidade distante, quase um sonho impossível. Mas voluntários da Aban, durante um bom tempo acreditaram que só a qualificação profissional era o caminho para ultrapassar essa barreira.

Depois de tantas tentativas de fazer do Empregabilidade um projeto que proporcionava capacitação profissional o grupo percebeu que esse não era o maior gargalo. O problema não estava em ensinar a cozinhar, a fazer um artesanato com design ou a ser uma excelente cuidadora de crianças ou idosos. Tudo isso as mulheres aprendiam, com certa facilidade. Conseguiam seus empregos, na maior parte domésticos e….não permaneciam neles.

Então, após alguns anos vendo a mesma situação se repetir, os voluntários começaram a se questionar, aonde estamos errando? A resposta era simples, mas nem tudo que é simples é fácil de perceber. Não faltava só capacitação profissional, faltava direcionamento comportamental, autoestima elevada, sentimento de merecimento diante do mercado de trabalho.

Sim, é verdade, viver em um ambiente hostil, não ter perspectiva de crescimento, às vezes nos turva a visão e não conseguimos enxergar o que o outro nos exige. No caso dessas mulheres significa não entender o que mercado exige delas. Atitudes simples como: horário, trabalhar em equipe, saber se posicionar sem agredir (por defesa, claro!). Comportamento que “nós” chamamos de básicos, elas os definem como descobertas.

Foi assim que a proposta do Empregabilidade evoluiu. Passou de simples cursos de capacitação profissional para desenvolvimento pessoal. Na primeira turma, na primeira semana, nos surpreendemos com 21 mulheres de 18 a 35 anos e um grupo de voluntários de peso: psicólogos, uma Doutora em Letras, consultora em Responsabilidade Social, Coach. Além de parceiros convidados: um administrador, uma especialista em moda, um economista e um profissional de RH.

O curso foi divido em quatro módulos e tinha uma novidade: uma empresa do entorno que estava oferecendo uma capacitação específica em Limpeza Hospitalar e uma proposta de abrir um processo seletivo para as mulheres que tivessem 70% de presença no curso. Fantástico, pensamos! Logo na segunda semana o grupo caiu para 12 mulheres e finalizou com nove. Percebemos que o primeiro desafio era mantê-las no curso.

Ainda assim, tudo certo! Ao final formamos uma turma, a seleção foi realizada e cinco delas passaram no primeiro processo seletivo de suas vidas. Foi um ano de curso, outro de acompanhamento com o Coach e esse ano, três delas estão mantendo um encontro semanal comigo. Mas todas completam dois anos no mesmo emprego.

Outras duas turmas surgiram nos anos consecutivos e outras empresas aderiram à parceria.  A história de se repetiu, sala lotada nos primeiros dias e um esvaziamento nas semanas seguintes. Esse desafio ainda não vencemos. Estamos abertos a sugestões! Mas depois de três anos de projeto 13 mulheres demostram uma determinação gigante para se manterem no mercado de trabalho. Algumas deram saltos incríveis, como terminar o ensino fundamental (algo antes impensável) ou ensino médio, ingressar em um curso de enfermagem e ser promovida de auxiliar de cozinha para um cargo administrativo.

Não paramos por aí! Revisamos novamente o Empregabilidade, mas mantivemos o foco que é mudar padrões de comportamento e crenças limitantes para que essas mulheres permaneçam no mercado de trabalho e que possam ir além. A roupagem esse ano é: Empreendedorismo profissional e pessoal. Só para as mulheres que já participaram de grupos anteriores e que desejam abrir o próprio negócio ou entrar para o “mercado formal” e mesmo para aquelas que estão empregadas mas desejam crescer profissionalmente seja dentro da mesma empresa ou em outra área.

Lá vamos nós voluntários e empresas parceiras em busca de uma responsabilidade social e uma sustentabilidade que vai muito além de ser solidário ou de empregar a comunidade do entorno para cumprir indicador, representa esforço, dedicação de todas as partes e, o mais importante, significa que a mudança vem primeiro de quem se propõe a fazer e não quem recebe a ação.

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