HomeOpiniãoO pacto democrático é a saída

O pacto democrático é a saída

Afinal, que Brasil pode emergir da pior crise que vivemos em nossa história? Hoje, tal alcunha dada ao momento político e econômico atual se consolida depois que, 32 anos após o plano Sarney, o país volta a conviver com o fantasma do desabastecimento. A greve dos caminhoneiros tem um desfecho ainda incerto e o Planalto parece incapaz de dialogar com um movimento descentralizado, envolvendo amplos setores ideológicos da população, que convergem para a inicialmente despolitizada categoria profissional que mostrou, até agora, o maior poder de paralisação do país e desestabilização de um Governo considerado ilegítimo, agora, tanto pela chamada esquerda quanto pela direita.

Sim. A greve dos caminhoneiros conseguiu estabelecer pautas que uniram o país, e esse é seu produto mais importante. Afinal, se há pelo menos cinco anos, desde o junho de 2013, o país vive dividido entre coxinhas e petralhas, agora é a agenda nacional que domina o debate público. Quanto vamos pagar por gás e gasolina (apesar de inicialmente os protestos discutirem o óleo diesel, todos sabemos que a questão é dos combustíveis em geral)? Vale a pena ignorar a função social das empresas públicas, estratégicas para o bom funcionamento do setor produtivo? Qual a medida do equilíbrio entre a privatização e a estatização da economia?

Ora, o senhor que senta-se à mesa da Churrasqueira do Alto dos Passos pode, agora, questionar se sua demanda impensada quanto à venda do patrimônio público não prejudica a distribuição dos produtos de sua empresa, afetada pelos preços de combustíveis e, ainda, conta de luz, que também vai pesar com a iminente entrega da Eletrobras. Ao mesmo tempo, o estudante que sobe de ônibus todo dia para a universidade começa a perceber que homens e mulheres supostamente “ignorantes”, que engrossam o caldo elitista de intolerância às agendas de esquerda e impulsionam a irracional viabilidade da candidatura Bolsonaro, são trabalhadores, e que junto a estes é indispensável o diálogo. Por fim, esta convergência suscita, finamente, algum debate entre aquele velho senhor e este jovem que espera da sociedade a oportunidade de um futuro próspero.

Não é desejo utópico. É um fato que se sentiu no Brasil neste fim de semana, de empatia e reconhecimento ao outro lado, e que pode ser aproveitado para encaminhar o país no rumo de eleições livres e diretas.

O pacto pela retomada da economia passa pela reconquista da democracia. Percebemos agora que a falta da legitimidade de um Governo inviabiliza o diálogo e a solução para os problemas do país. Se você não reconhece no presidente uma autoridade, e se isso se espraia para a igual contestação de atos suspeitos da Justiça e das forças de segurança nacional, a geleia institucional vai parando as engrenagens do funcionamento do país. Isto ocorre de tal modo que o colapso reproduz as imagens que já vimos na Venezuela, governada pela esquerda, e na Argentina, pela direita, porém ambas ameaçadas pela ilegitimidade, onde, no entanto, jamais chegou-se perto do não reconhecimento total que vemos hoje no Brasil.

A sociedade começa a perceber. O pacto democrático urge. E o exemplo que podemos tomar para o país está nos Estados Unidos da depressão dos anos 1930 ou na França das greves de 1968, onde a solução passou, simplesmente, pela legitimidade para negociação dos Governos legítimos de Franklin Roosevelt e Charles De Gaulle. O primeiro, à esquerda de inclinação popular, o segundo, um militar de direita com discurso de ordem, porém dentro dos limites democráticos.

A lição evidente da história é de que, mais do que a disputa ideológica, caminhos distintos dentro do acordo e da democracia são a solução para a reestabilização de um país.

Hélio Rocha

Jornalista formado pela UFJF

Repórter de meio ambiente e direitos sociais

Mestrando em Comunicação

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