HomeOpiniãoO passo decisivo de Minas contra o Estado de exceção

O passo decisivo de Minas contra o Estado de exceção

O último domingo, em que uma decisão frágil e subjetiva do desembargador de plantão no Tribunal Regional Federal da 4a Região (TRF-4), Rogério Favreto, quase pôs Lula em liberdade, foi o dia em que se expuseram as vísceras apodrecidas do Judiciário partidarizado brasileiro e a flagrante injustiça das manobras operadas pelo juiz Sérgio Moro, que impediu que a Polícia Federal (PF) cumprisse ordem do TRF-4, ou seja, ordenou que se desobedecesse a um juiz de 2a instância, que lhe é superior. Este dia começa a reverberar na luta política que se trava a partir de agora.

Agosto batendo às portas, e com ele a campanha presidencial, dificilmente outro fato tão relevante estará no limiar da pré-campanha e, por assim dizer, dará o tom dos primeiros programas de TV, debates e palanques eleitorais. É algo semelhante ao que foi o acidente aéreo fatal de Eduardo Campos (PSB), candidato à presidência em 2014, fato que mudou o jogo eleitoral às vésperas do início oficial da campanha.

Estratégias da equipe petista e de seus adversários à parte, um importante movimento visando às seis semanas de campanha começou a ser dado esta manhã, quando 11 governadores assinaram documento de repúdio à ação de Moro. Assim se alinhando, estes chefes de Executivo, dos nove estados nordestinos, mais Acre e Minas Gerais, colocam-se definitivamente no campo contrário aos arbítrios da Justiça de Curitiba e criam um bloco de proteção ao Estado de direito que é imprescindível na “capilarização” de um ponto de vista político que, nos últimos anos, vem sendo obstruído pela grande mídia.

A palavra, que se tornou jargão na política, é essa: “capilarizar”, isto é, fazer uma ideia, um programa para o país, um entendimento dos acontecimentos e de soluções para os problemas da política espalharem-se pelos recantos mais distantes dos centros decisórios. Como os vasos capilares em que circula o nosso sangue, daí a expressão, ramificar-se a difusão de ideias de modo que, de um professor universitário de Belo Horizonte, Minas Gerais, a um vendedor de tapiocas em Brejo da Madre de Deus, Pernambuco, consolide-se um entendimento de que problemas vivemos e quais caminhos podemos seguir, a partir de outubro, para melhorarmos o país. Só a grande mídia tem esse poder, exceto pelos palanques eleitorais, a cada quatro anos.

Tendo isso em vista, como tantas vezes em pouco mais de um século de avanços e retrocessos na vida republicana do Brasil, o país divide-se entre um eixo Norte-Nordeste e outro Sul-Sudeste, o que vem sendo mostrado nos mapas eleitorais das últimas eleições. Todavia, a decisão dos governadores é um indicativo de que, ao se analisar esta reiterada movimentação do eleitorado, não se está falando de escolhas individuais de cidadãos mais ou menos pobres ou dependentes do Governo. Mostra-se aí um projeto ideológico de país que se distingue entre a proposta de regiões desatendidas pelas elites econômicas nacionais e dependentes de um projeto de Estado forte, nacional e integrador do país, e outra que defende a primazia de estados que se afirmam produtores de riquezas colhidas no empreendimento livre e liberal.

Estes últimos, cujos governantes e elites são negligentes ao fato de que se beneficiam da disparidade regional, buscando nos estados pobres o provimento de insumos para a indústria, dividendos da agroexportação e mão de obra barata, estarão majoritariamente alinhados à direita, que em 2018 ganhará a face disforme de uma defesa da economia liberal, com lastro no Estado autoritário que emana dos tribunais, ao invés dos quartéis do século XX. Aqueles primeiros, terão no ex-presidente Lula a imagem (o mal latino-americano da personificação, do qual ainda não nos desvencilhamos) do Brasil integrado, nacional e desenvolvimentista.

Neste contexto, desempenha, historicamente, papel de fiel da balança o estado de Minas Gerais. Se são 11 governadores, portanto quase metade do país (o que ainda pode aumentar, a depender da imprevisibilidade das lideranças amorfas nortistas e do descontrole político do Rio de Janeiro, outro estado decisivo), há uma ideia que percorrerá pequenos palanques Brasil afora. Partindo da força econômica de Minas Gerais como corre ao norte o rio São Francisco, pode se consolidar novamente a ideia de que a riqueza do Sudeste faz concentrarem-se aqui as principais lideranças e partidos políticos do país, mas não necessariamente o projeto central de nação que emerge do processo democrático direto.

Minas Gerais, por seu imenso território e quase única diversidade regional, é uma força que pende ora para um lado ora para o outro. Foi assim durante a Revolução de 1930, quando a modernização se instalou de forma autoritária a partir do gaúcho Getúlio Vargas, mas sob os auspícios do líder mineiro Antônio Carlos e do paraibano João Pessoa, deixando para trás a dissimulada república do “café com leite” e restando dela a eterna disputa pelo poder federal com a elite de São Paulo. Ocorreu o mesmo quando o governador Magalhães Pinto (UDN) articulou o golpe de 1964 a partir da 4a Região Militar, em Juiz de Fora, virando as costas ao projeto de ampliação dos direitos dos trabalhadores e instauração da reforma agrária do presidente João Goulart (PTB). Vem de Minas, ainda, um dos símbolos da redemocratização e da conciliação, o presidente Tancredo Neves (MDB).

A meio caminho entre o Brasil rico das grandes metrópoles e latifúndios e o sertão sofrido e esquecido das obras do mineiro Guimarães Rosa e do alagoano Graciliano Ramos, Minas oscila conforme seu campo político majoritário em cada período. Como segundo maior colégio eleitoral brasileiro, com 853 municípios em que o poder capilar do palanque e da caneta do Governo estadual se faz primordial, Minas Gerais pode mais uma vez decidir os rumos do país entre o progresso e o atraso. Por ironia, com todas as contradições da combalida gestão de Fernando Pimentel, a esquerda pode agradecer pelo estado tê-lo eleito em 2014.

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