HomeOpiniãoUma greve no desenvolvimento do turismo nacional

Uma greve no desenvolvimento do turismo nacional

Por: Thais de Oliveira Lima

Que a paralização dos caminhoneiros nos últimos dias afetou diversos setores da economia no Brasil, não é novidade para ninguém. E, claro, no turismo não foi diferente. Não estou aqui para defender ou criticar a ação dos caminhoneiros, apenas para elucidar sobre as consequências para o setor de turismo com este movimento. Afinal, toda ação gera uma reação. Neste caso, a falta de distribuição de combustível gerou prejuízos significativos para a atividade turística que, além de ter amargado um feriado prolongado com viagens canceladas de norte a sul do país, está prestes a pagar parte da conta dos acordos estabelecidos pelo governo federal.

Vamos começar entendendo as consequências dos cancelamentos. Uma vez que o turismo se configura em uma cadeia produtiva que envolve diversos segmentos econômicos, uma viagem cancelada causa um prejuízo em série. Basta um raciocínio simplificado: a agência perde a venda do pacote; a empresa de transporte da passagem; o hotel não ocupa o seu leito; o restaurante vende menos refeições; o artesão deixa de vender souviner; o atrativo não vende ingresso, o guia fica sem trabalho e, assim por diante.

Agora, multiplica isso por quatro dias de feriado e por milhares de brasileiros e ate estrangeiros cancelando suas viagens. Pronto, estamos diante de um prejuízo generalizado para o setor. Lembrando, que mencionei apenas o que chamamos de atividades diretamente relacionadas ao turismo (agência, transporte, hotel, restaurante, comércio especializado, atrativos e guia), se eu tivesse me aprofundado em todas as movimentações econômicas feitas pelo turista em um destino, seria possível observar que o estrago foi ainda maior.

Contudo, se fizermos o pensamento inverso, começando com o turista comprando uma viagem para algum dos nossos destinos nacionais, conseguimos claramente entender a força deste setor para a economia de uma cidade, Estado ou país. Não é à toa, que o turismo é responsável por 10,4% do Produto Interno Bruto Global e gera um a cada dez empregos no mundo (WTTC, 2017). Além de gerar empregos diretos e indiretos para as populações, a atividade turística é geradora de lucros para o setor privado e impostos para o setor público. Por isso, tem sido considerado um dos maiores vetores do desenvolvimento de uma nação.

Todavia, mesmo diante da comprovação numérica dos seus resultados, a atividade ainda é tratada com certo descaso no Brasil e seu potencial menosprezado pelos governantes do nosso país. Além do baixo investimento para o desenvolvimento do turismo nacional, o governo está considerando reonerar o setor hoteleiro, um dos serviços bases para a atividade turística, como uma compensação à redução de R$ 0,46 no litro do diesel prometido para os caminhoneiros em greve (PLC 52/2018).

Segundo a Federação Brasileira de Hospedagem e Alimentação, a decisão do Congresso Nacional pode levar, inicialmente, a demissão de 20 mil profissionais e incentivar a informalidade na atividade turística. Além disso, a reoneração pode levar ao aumento das tarifas hoteleiras para o turista, o que atrelado com diversos outros fatores que não favorecem o turismo no país, pode diminuir, ainda mais, a nossa competitividade no mercado internacional. Enfim, na contramão do desenvolvimento do turismo no mundo, essa proposição nos leva a pensar que, como diz os ditados, a “alegria de pobre dura pouco”, pois a gestão pública quer “descobrir um santo para cobrir outro”.

Thais de Oliveira Lima

Turismóloga

Presidente do Convention & Visitors Bureau

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